Hemodiluição Normovolêmica
Aguda

A Hemodiluição Normovolêmica Aguda (HNA) é uma técnica médica de grande importância e impacto na área da saúde. Neste espaço, mergulharemos profundamente nessa técnica, desvendando seus mistérios e destacando seus principais benefícios.

Assista: Entendendo a Hemodiluição Normovolêmica Aguda

O Que é HNA?

A HNA é uma técnica que envolve a remoção temporária de uma certa quantidade de sangue do próprio paciente, substituindo-o por soluções cristaloides e/ou coloides, mantendo a normovolemia do indivíduo.

A técnica de Hemodiluição Normovolêmica Aguda

A Hemodiluição Normovolêmica Aguda (HNA) é uma técnica de anestesia que pode ser considerada individualmente para reduzir transfusões sanguíneas. Ela pode ser descrita como uma técnica que, após a indução da anestesia e antes da heparinização, uma quantidade específica de volume de sangue total – previamente calculada – é coletada do paciente e temporariamente armazenada à beira do leito. Simultaneamente à coleta, ocorre substituição por volumes suficientes de soluções cristaloides ou coloides para manter o volume intravascular. A hemodiluição reduz a concentração de hemoglobina do paciente durante toda a cirurgia, portanto, menor quantidade de hemácias são perdidas durante os eventos hemorrágicos. O sangue autólogo temporariamente separado do sistema circulatório, rico em hemácias, plaquetas e fatores de coagulação, e sem os efeitos deletérios das lesões por estocagem que acometem as hemácias que ficam armazenadas por muitos dias, é então devolvido ao paciente após realização da hemostasia, conforme necessário.

Por Que

Usar a Técnica?

A transfusão sanguínea alogênica, definida pela transfusão inter-indivíduos, embora seja um procedimento bastante tradicional e popular, é considerada um recurso escasso e custoso no âmbito da saúde, além de estar relacionada à algumas possíveis complicações, como transmissão de doenças infecciosas, desfechos a curto e longo prazos desfavoráveis, aumento no período de internação hospitalar e mortalidade quando comparados aos pacientes que não receberam transfusões sanguíneas (Shander et al, 2020; Barile et al, 2017; Hopewell et al, 2013; Marik, 2008; Murray, 2004).

Nesse sentido, surge o conceito de Gerenciamento de Sangue do Paciente (em inglês, Patient Blood Management – PBM), definido como um conjunto de cuidados que visam a otimização dos resultados médicos e cirúrgicos, preservando clinicamente o sangue do próprio paciente (Pedroso et al., 2020). Esse gerenciamento tem sido fortemente apoiado por diversas instituições, inclusive pela Organização Mundial da Saúde (Geneva: World Health Organization, 2021).

Por definição, o PBM muda o foco da tradicional transfusão reativa de pacientes com componentes sanguíneos alogênicos para medidas preventivas, acabando por gerenciar de maneira mais otimizada o sangue autólogo (Shander et al, 2020), diminuindo o uso de transfusões sanguíneas, tempo de internação hospitalar, complicações infecciosas e tromboembólicas, além da mortalidade (Althoff et al, 2019) e custos hospitalares (Kaserer et al, 2019; Meybohm et al, 2020).

Existem, na literatura, diversas estratégias que visam minimizar o número de transfusões alogênicas. Pode-se utilizar técnicas que reduzem o sangramento intraoperatório, como o ácido tranexâmico. Além disso, é possível utilizar a eritropoietina recombinante humana como terapia isolada ou adjuvante das outras técnicas, a suplementação com ferro por via endovenosa ou dispor de tecnologia como os aparelhos que recuperam e processam hemácias aspiradas do campo cirúrgico, conhecidos como cell-savers (Manica, 2018).

Dentre as opções disponíveis no PBM, destaca-se a técnica da Hemodiluição Normovolêmica Aguda (HNA), que vem sendo estudada nas últimas décadas devido aos seus possíveis benefícios frente a pacientes com potencial de perdas sanguíneas durante uma cirurgia.

INDICAÇÕES
CONTRAINDICAÇÕES

Apesar de ser possível encontrar informações diversas na literatura, especialistas mencionam que a contraindicação absoluta à técnica seria a recusa do paciente. As demais contraindicações acabam por funcionar como sinais de alerta maiores e menores. Para cada caso, deve-se avaliar o risco-benefício do procedimento e o quadro clínico do paciente.

Recusa do paciente em se submeter à técnica.

  • Arritmias com repercussão hemodinâmica;
  • Presença de infecção ativa (bacteremia ou sepse).
  • Angina instável;
  • Insuficiência cardíaca congestiva (Fração de Ejeção <45%);
  • Valvulopatias;
  • Arritmias;
  • Hipertensão arterial descompensada;
  • Doença respiratória grave (PO2 <60 mmHg em ar ambiente);
  • Diabetes melito descompensada;
  • Pacientes anêmicos (Hb basal <11g/dL) devem ser avaliados com cautela, pois a HNA reduz o hematócrito;
  • Doença hepática ou renal;
  • Presença de estenose carotídea (>70%);
  • Insuficiência renal crônica oligúrica ou anúrica;
  • Insuficiência renal aguda;
  • Baixas concentrações ou alterações na função de fatores de coagulação e plaquetas;
  • Cirurgia de emergência;
  • Vigência de coagulopatia;
  • Impossibilidade de monitorização das concentrações de hemoglobina, valores séricos de plaquetas e provas de função da coagulação, com resultados rapidamente disponíveis (5 a 30 minutos);
  • Acesso vascular inadequado.

Essas contraindicações servem como diretrizes essenciais para a tomada de decisões clínicas relacionadas à aplicação da HNA. Sempre é crucial considerar o estado clínico e os riscos individuais de cada paciente antes de prosseguir com a técnica.

Regulamentação

A regulamentação no Brasil é fundamental para estabelecer diretrizes e garantir a segurança dos pacientes. As principais normativas que tratam desse procedimento são:

– RESOLUÇÃO DA DIRETORIA COLEGIADA – RDC N° 34, DE 11 DE JUNHO DE 2014;
– PORTARIA Nº 158, DE 4 DE FEVEREIRO DE 2016;
– PORTARIA DE CONSOLIDAÇÃO Nº 5 DE 28 DE SETEMBRO DE 2017 – Procedimentos Hemoterápicos.

O sangue autólogo, em situações excepcionais, poderá ser coletado do paciente imediatamente antes da cirurgia (hemodiluição normovolêmica) ou recuperado do campo cirúrgico ou de um circuito extracorpóreo (recuperação intraoperatória).

Art. 222. As unidades de sangue obtidas no pré-operatório imediato, por hemodiluição normovolêmica, permanecerão na sala de cirurgia em que o paciente está sendo operado durante todo o ato cirúrgico.

§ 1º As unidades de sangue de que trata o “caput” poderão ser utilizadas no doador-paciente em   até 24 (vinte e quatro) horas depois da coleta, desde que mantidas à temperatura de 4 ± 2ºC, ou   em até 8 (oito) horas, se as bolsas forem mantidas à temperatura entre 20ºC e 24ºC.

§ 2º A transfusão das bolsas autólogas depois que o doador- paciente deixou a sala de cirurgia   poderá ser realizada, desde que haja protocolo escrito que defina como serão feitos a   identificação e o armazenamento destas bolsas.

§ 3º O procedimento de hemodiluição pré-operatória poderá ser realizado mesmo em unidades de assistência à saúde que não disponham de serviço de hemoterapia.

SUS e Saúde Suplementar​

O procedimento da Hemodiluição Normovolêmica Aguda pode ser realizado dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), embora não se tenha conhecimento de um código específico para ele.  O mesmo ocorre na saúde suplementar.

Alguns especialistas acabam cobrando o procedimento como “transfusão”, embora reiterem os inúmeros benefícios se a técnica tivesse um código próprio no SUS e na saúde suplementar.

Alguns exemplos de códigos contemplados na tabela SUS: “coleta de sangue para transfusão” (03.06.01.001), “conjunto para autotransfusão” (07.02.05.013), “exames pré-transfusionais” (02.12.01.002), “transfusão de unidade de sangue total” (03.06.02.014).

MATERIAIS

OBS: A depender do serviço, os materiais são solicitados diretamente ao Banco de Sangue ou à própria farmácia do centro cirúrgico.

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)

Após ampla busca com especialistas, não foram encontrados Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) específicos para a realização do procedimento de Hemodiluição Normovolêmica Aguda. Em anexo segue uma sugestão de TCLE criado pelos pesquisadores da Unifesp, embasado nas recomendações do Conselho Federal de Medicina (CFM) nº 1/2016.

LOGÍSTICA

Protocolo
Pré-Operatório​

Quanto à logística necessária para realização da técnica, não há um protocolo pré-operatório clínico específico e direcionado para a Hemodiluição Normovolêmica Aguda, sendo individualizado caso a caso. Especialistas sugerem a execução das práticas de Gerenciamento de Sangue do Paciente (em inglês, Patient Blood Management – PBM), a fim de deixar os pacientes preparados para a cirurgia assim como para a execução da técnica.

A Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia elaborou um consenso de PBM para a fase pré-operatória e a aplicação das práticas deste consenso é altamente recomendada.

 

Aviso Cirúrgico, Ficha Anestésica e Descrição Cirúrgica

Idealmente, deve ser avisado previamente à toda equipe que a técnica será realizada durante o ato cirúrgico. Contudo, especialistas afirmam que a tomada de decisão da realização da técnica poder ser definida já após o início do ato cirúrgico, a depender do caso.

Em média, solicita-se ao Banco de Sangue 2 a 3 bolsas simples vazias para cada procedimento. 

As anotações referentes à técnica podem ser inseridas na ficha anestésica e seu uso mencionado na descrição cirúrgica.

Saiba mais sobre a Técnica

A HNA é uma técnica que consiste na retirada de sangue total do paciente com infusão simultânea de cristaloides e/ou coloides para manter a volemia normal. Nessa técnica, não é obrigatório a obtenção de uma linha arterial, embora alguns especialistas considerem que ela possa ser útil por permitir a retirada de sangue de forma eficiente e rápida, além de possibilitar a avaliação fidedigna da condição hemodinâmica e gasometria arterial.

O acesso venoso central não é obrigatório. Caso o acesso venosos central seja indicado por outros motivos, ele pode contribuir como uma via de infusão eficiente, assim como ser uma fonte de monitorização, a partir da qual se verifica a pressão venosa central e de onde se pode avaliar de forma indireta a perfusão tecidual mediante análise de gasometria central. Portanto, a indicação ou não de um acesso central fica reservado caso a caso, conforme indicação clínica do paciente e não devido ao procedimento de HNA per se.

A HNA tem como principal efeito a redução da viscosidade sanguínea e da resistência vascular sistêmica (RVS). Essa redução da viscosidade altera principalmente o fluxo sanguíneo no território venoso, onde o movimento do sangue ocorre de forma mais lenta, aumentando assim o retorno venoso e consequentemente o volume diastólico final do ventrículo direito. Assim, ocorre também uma redução da pós-carga do ventrículo direito, otimizando o enchimento das câmaras esquerdas e do ventrículo esquerdo, resultando no aumento do volume sistólico e na consequente manutenção do débito cardíaco. 

Em termos hemodinâmicos, a HNA apresenta incontestáveis vantagens quando são avaliadas grandezas físicas como fluxo, viscosidade e resistência, porém, não se pode esquecer de avaliar as variáveis referentes à perfusão. A entrega de O2 (DO2) é diretamente proporcional ao débito cardíaco (DC) e ao conteúdo arterial de oxigênio (CaO2). Esse, por sua vez, é diretamente proporcional à concentração de hemoglobina (Hb), à saturação de oxigênio da Hb (SaO2) e à pressão parcial de oxigênio no sangue arterial (PO2).

A quantidade de oxigênio entregue aos tecidos poderá ficar prejudicada se houver excessiva hemodiluição, uma vez que será de pouca valia a melhora no fluxo sanguíneo proporcionada pela redução da viscosidade se não houver hemoglobina em concentração suficiente para transportar oxigênio. Por essa razão, a monitorização da extração periférica de O2 é importante quando se realiza a HNA.

Após a indução da anestesia e antes da heparinização, uma quantidade específica de volume de sangue total – previamente calculada de acordo com a fórmula a seguir – é removida do paciente e temporariamente armazenada à beira do leito. Isso é seguido pela substituição por volumes suficientes de soluções cristaloides ou coloides para manter o volume intravascular. A hemodiluição reduz a concentração de hemoglobina do paciente durante toda a cirurgia, portanto, menor quantidade de hemácias são perdidas durante os eventos hemorrágicos. O sangue autólogo temporariamente separado do sistema circulatório, rico em hemácias, plaquetas e fatores de coagulação, é então devolvido ao paciente após realização da hemostasia ou ao final do procedimento ou caso o paciente demonstre sinais de sofrimento tecidual, conforme for julgado necessário.

A partir da Fórmula de Gross é definido se a redução no hematócrito final será para 30%, 25% ou 20%, dependendo das características do paciente, da cirurgia e da equipe cirúrgica. Na maioria dos casos, o valor de 20% é usado para os cálculos. É importante ressaltar que essa fórmula serve como uma estimativa de extração do sangue e, por isso, as condições hemodinâmicas e perfusionais devem ser rigorosamente avaliadas durante o procedimento para definir com segurança o volume sanguíneo a ser retirado.

Reposição volêmica

A estratégia mais utilizada para realizar a reposição volêmica durante a extração do sangue é proposta pelo protocolo de Mattox que, em 1999, definiu que cada mililitro (mL) de sangue perdido deve ser reposto com 3 mL de solução cristaloide. Por conta da cinética das soluções cristaloides, no entanto, a adequada reposição volêmica não depende apenas do volume administrado, mas também da velocidade da administração.

Durante a retirada do sangue, deve-se repor a volemia com soluções acelulares, não havendo consenso quanto ao uso de cristaloides, coloides e/ou associação de ambos.

Alguns especialistas têm a preferência por realizar a reposição dos primeiros 1000 mL com solução coloide na proporção de 1:1, sendo o restante reposto com solução cristaloide, na proporção de 2:1. Por exemplo: em um paciente cujo planejamento é a retirada de 2.500mL de sangue, os primeiros 1.000mL são repostos com 1.000mL se solução coloide (proporção 1:1) e os demais 1.500mL são repostos com 3.000mL de solução cristaloide (proporção 2:1).

O ideal é que o sangue seja devolvido quando não há mais risco de sangramento, porém nem sempre isso é possível e, em alguns casos, é necessário devolver antes do previsto para preservar a homeostase (caso haja sinais de instabilidade hemodinâmica não responsivas à infusão de soluções ou sinais de sofrimento celular [lactato plasmático acima de 3,5 g.dL-1]. As bolsas costumam ser devolvidas aos pacientes após a fase de maior sangramento ter cessado, após a saída de circulação extracorpórea (CEC) ou conforme a necessidade intra-operatória. Essa devolução deve ocorrer na ordem inversa da coleta, ou seja, a primeira bolsa a ser devolvida será a que foi coletada por último, pois a bolsa que foi coletada primeiro é a que contém melhor hematócrito.

Em geral, as bolsas não são descartadas, pois são, em sua imensa maioria, devolvidas aos pacientes. Alguns especialistas mencionam que, nos casos em que a indicação é a melhora da microcirculação, como em enxertos e implantes, a bolsa pode ser descartada.

O anticoagulante citrato presente nas bolsas de sangue poderá, eventualmente, levar à hipocalcemia. Por tais motivos, recomenda-se dosar o cálcio total e ionizável precocemente e frequentemente (a cada 60 minutos, ou após a devolução de uma bolsa de sangue). Faltam evidências na literatura que avaliem quando a suplementação de cálcio deve ser administrada durante transfusões sanguíneas para prevenir a hipocalcemia. A Organização Mundial da Saúde recomenda manter um nível de cálcio ionizado > 1,1 mmol/L em protocolos de transfusão maciça, uma vez que níveis de cálcio ionizado < 1 mmol/L estão associados a um maior risco de mortalidade.

Como tal, esse nível de cálcio recomendado pode ser usado como orientação sobre quando administrar a reposição de cálcio. Neste caso, deve-se realizar a injeção endovenosa de gluconato de cálcio 10% (1 ml/100 ml de sangue), em via diferente daquela que está ocorrendo a devolução do sangue.

Técnica em Testemunhas
de Jeová

Pelo fato de ser uma autotransfusão, não incluindo diferentes indivíduos e não havendo armazenagem prolongada do sangue, a técnica pode ser uma adequada opção intraoperatória para pacientes Testemunhas de Jeová (Schaller et al., 1983). Os pacientes Testemunhas de Jeová não aceitam receber transfusão autóloga quando entendem que houve perda completa de solução de continuidade com o seu sangue, razão pela qual eles não aceitam a pré-doação para transfusão autóloga. Eventualmente, nesses pacientes, pode ser que seja necessário conectar o equipo da bolsa que armazena o sangue diretamente ao acesso venoso, mantendo-o preenchido com líquido. Para isso deve-se manter o sistema conectado continuamente, utilizando um circuito fechado semelhante aos usados em cirurgias cardiopulmonares (CEC) ou em sessões de hemodiálise.

Fórmulas

Fórmula de Gross (Gross, 1983):

V = Volume de sangue a ser retirado (em mililitros);

VSE = Volume de sangue estimado do paciente (70ml/kg para pacientes do sexo masculino e 65ml/kg do sexo feminino);

Hti = Hematócrito inicial;

Htf = Hematócrito a ser atingido;

Htm = Hematócrito médio, ou seja (hti + htf)/2.

Calculadoras

Calculadora de Hemodiluição




Volume de sangue a ser retirado:

Evidências, benefícios e dicas valiosas

A HNA mostrou-se uma técnica eficiente para reduzir a transfusão alogênica não só porque proporciona perda sanguínea com menor massa de hemácias, mas também porque, ao contrário do que se pensava, otimiza a coagulação. Acredita-se que, embora haja diluição dos fatores de coagulação, também ocorre diluição da antitrombina III, fazendo com que a atividade antitrombótica seja mais prejudicada do que a atividade pró-coagulante, assim a “balança” acaba pendendo a favor da coagulação.

A técnica acaba diminuindo o uso de transfusões sanguíneas, tempo de internação hospitalar, complicações infecciosas e tromboembólicas, além da mortalidade (Althoff et al, 2019) e custos hospitalares (Kaserer et al, 2019; Meybohm et al, 2020).

Revisão sistemática com metanálise de ensaios clínicos randomizados concluiu que a HNA reduz o uso de transfusões de sangue (Barile et al, 2017). Uma das suas principais vantagens é o fato de poder ser utilizada no intraoperatório, sem a necessidade de testagem e estocagem a longo prazo, diminuindo o risco de extravios e/ou erros transfusionais (Murray, 2004).

A técnica nos apresenta vários possíveis benefícios, incluindo: risco reduzido de eventos adversos relacionados às transfusões sanguíneas, transmissão de doenças infecciosas, menor dano ao eritrócito, menor impacto negativo na coagulação, preservação das células da linhagem vermelha e das plaquetas, aumento da perfusão e oxigenação tecidual (Shander et al, 2020; Barile et al, 2017), além da diminuição da viscosidade sanguínea, melhorando a circulação. Ainda, a HNA é uma técnica simples e de baixo custo, sem evidências de coagulação, hemólise, fibrinólise ou atividade imunológica no sangue coletado (Barile et al, 2017).

Pelo fato de ser uma autotransfusão, não incluindo diferentes indivíduos e não havendo armazenagem prolongada do sangue, a técnica pode ser uma adequada opção intraoperatória para pacientes Testemunhas de Jeová (Schaller et al., 1983) e naqueles com contraindicação absoluta à transfusão sanguínea alogênica (Segal et al., 2004). Assim, a técnica de HNA pode se mostrar útil e viável frente à falta de bolsas e de doadores, por utilizar o sangue do próprio indivíduo durante o ato cirúrgico. Além disso, mostra-se um procedimento valioso diante da escassez de bolsas de sangue promovidas por situações de pandemia, como a causada pela COVID-19. 

– Sangue pode ser retirado por qualquer vaso, artéria ou veia calibrosa (preferência por artéria, pelo maior fluxo e por já ser possível realizar a mensuração da Pressão Arterial invasiva – PAi);

– É sempre desejável a punção com cateter intravenoso flexível (Abocath, Jelco) de pelo menos 20G;

– A determinação do Hematócrito (Ht) desejado depende do porte da cirurgia. Segundo especialistas, na sua maioria é cerca de 20%;

– Durante a realização da HNA, o volume e as medicações anestésicas são infundidos paralelamente à realização da técnica;

– Especialistas afirmam que o tempo adicional que o procedimento de hemodiluição acrescenta no tempo cirúrgico não chega a 30 minutos; 

– Para indução anestésica dos pacientes que serão submetidos à técnica, é preferível o uso de drogas de meia-vida mais curta, pois as medicações acabam sendo extraídas durante a coleta das bolsas;

– Segundo especialistas, de forma prática, na coleta de sangue do paciente é retirado um pouco menos do que foi previamente calculado pela fórmula de Gross;

– A bolsa deve ficar abaixo do nível do paciente, para auxiliar na sua retirada (auxílio da gravidade), em cima de uma balança convencional;

– Retira-se cerca de 450mL (o equivalente a 450g na balança) de sangue para cada bolsa;

– Lembre-se sempre de retirar o ar das vias e identificar as bolsas;

– Cada unidade de sangue deve ser rotulada com o nome do paciente, número do registro, hora da retirada do sangue e número sequencial (se mais de uma unidade for retirada);

– Na prática, o tempo de coleta de sangue é de cerca de 6 a 8 minutos por bolsa;

– A cada bolsa coletada, reavaliar a hemodinâmica do paciente;

– Se possível, utilizar um “agitador” da bolsa de sangue (disponível em hemocentros), porém este item não é obrigatório;

– Recomenda-se agitar manualmente a bolsa de sangue de tempos em tempos, caso não seja utilizado um “agitador”;

– Idealmente, a monitorização do procedimento é realizada através da saturação venosa mista, podendo ser auxiliada por valores de lactato sérico. Especialistas acreditam que, futuramente, essa monitorização será realizada pela oximetria cerebral;

– O paciente provavelmente irá apresentar sinais clínicos de anemia (hipocorado, pouca perfusão periférica);

– É possível manter o sangue retirado em temperatura ambiente por cerca de 8 horas (alguns serviços consideram o tempo limite de 4 horas);

– O sangue é devolvido ao paciente de maneira convencional, como uma transfusão sanguínea;

– A primeira bolsa é considerada “muito boa”; bolsas subsequentes, cada vez mais diluídas;

– No momento do retorno das bolsas de sangue, é importante a administração de um diurético para uma maior diurese do paciente, prevenindo a hipervolemia;

– É de grande valia a coleta de uma gasometria ao início (basal) e ao final, sendo coletadas adicionais dependendo do caso e do perfil do paciente;

– Depois da HNA, recomenda-se solicitar uma Hemoglobina (Hb) e um Hematócrito (HT), cerca de 10 minutos após a técnica;

– As bolsas podem ser descartadas em lixo contaminado ou diretamente ao banco de sangue, conforme protocolo hospitalar;

– As bolsas coletadas não podem ser encaminhadas para posterior doação;

– Segundo especialistas, de forma prática, a reposição de Cálcio se dá da seguinte maneira: a cada 100mL de sangue reinfundido, administra-se cerca de 1mL de Gluconato de Cálcio a 10%;

– Não há a obrigatoriedade de um indivíduo do banco de sangue durante o procedimento.

Possíveis complicações

A HNA pode causar hipervolemia e sobrecarga cardiocirculatória nas cirurgias em que o sangramento previsto acaba não ocorrendo; por conta disso, a devolução do sangue deverá ser feita com cautela, conforme o estado clínico do paciente, para evitar complicações decorrentes da hipervolemia. Mesmo pouco frequente, as bolsas podem ser devolvidas até mesmo horas após o término do procedimento – cerca de 6 horas, segundo dados na literatura.

Por hemodiluir e diminuir os níveis hematimétricos dos pacientes, a técnica pode relacionar-se a complicações vinculadas a estados anêmicos, além de haverem relatos escassos de quadros infecciosos relacionados à técnica.

Simpósio “Treinamento em Hemodiluição Normovolêmica Aguda (HNA)”

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Esse web aplicativo é produto do Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicadas à Regeneração Tecidual da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desenvolvido pelo Mestrando Eduardo de Souza Tolentino, sob orientação dos professores Juan Carlos Montano Pedroso e Paulo Rogério Quieregatto do Espírito Santo.

Um agradecimento aos especialistas convidados que nos auxiliaram na confecção e revisão deste web aplicativo, em especial ao Dr Luis Vicente Garcia.